“Embora difíceis (mas não impossíveis) de modificar e variando em questão de tempo e lugar, a controvertida ética possui, dentro dela mesma, um teor altamente universal e imutável.”
Podemos citar algumas razões para que um indivíduo se torne vegetariano: compaixão aos animais, saúde, filosofia, religião, economia, consciência ambiental, distribuição eficiente de alimento, ética…ops, ética?! Será que alguém ainda se lembra dela? Sabemos que o termo provêm do grego ethose que significa costume, ou em outra variação de acentuação do termo, caráter. Entretanto, apesar de a maioria entender a significação da palavra, acredito que estamos vivendo um momento de extinção da ética, e se por acaso, você, querido leitor, encontrar algum resquício dela por aí, observe bem, pois poderá ser a última vez, antes do cataclismo do egoísmo interesseiro e imaturo que envereda-se em nossa sociedade sorrateiramemte como uma naja venenosa. No artigo deste mês, tentaremos entender um pouco do caminho da ética, quase sempre ardiloso e pedregoso, pois nem sempre (ou quase nunca) é bem compreendido, varia de época e lugar, é muito subjetivo e cada um tem o seu.
Iniciemos pelo primeiro significado: costume. O próprio termo já diz, é aquilo que estamos acostumados a fazer, o que aprendemos de berço ou do ambiente em que vivemos, ou seja, tudo aquilo que crescemos aprendendo a achar que é correto e que, por muitas vezes, iremos carregar ao longo de nossas vidas e que acabará moldando nosso caráter, o que acaba tendo relação com a segunda tradução do termo ética.
Recentemente foi publicada uma pesquisa que apresentava estatísticas de pessoas que, na infância, possuíam o estranho hábito de abusar de animais por puro prazer e que passaram a fazer o mesmo com seres humanos quando já estavam em idade adulta. Quando vi isso pela primeira vez, pensei ser óbvia a tese, pois nada mais natural do que manter um velho costume. No entanto, obviamente esta retórica não é regra, afinal, nós não chupamos mais chupeta, não dormimos com nossos pais, não tomamos leitinho quente antes de dormir… ops, muita gente ainda tem este costume (deve ser também devido ao triptofano que embala nosso sono). Enfim, temos a tendência de manter a ética que nos foi ensinada, para somente depois colocarmos nossa própria experiência neste caldeirão de vivências.
De qualquer forma, vejo estas duas traduções, costume e caráter, como algumas das coisas mais difíceis de mudar em um ser humano, e olhe que escrevo isso com conhecimento de causa, pois lido com diferentes pessoas diariamente há mais de uma década.
Ficamos tão acostumados com aquilo que nos foi espelhado quando crianças, que o repetimos ao longo de toda uma vida: é o velho “diga-me com quem andou e te direi quem se tornou”. Por isso, em minha opinião, é importante nos cercarmos de bons exemplos desde o princípio dos tempos. Veja um exemplo verídico de costume que tornou-se hábito inconsciente: vários macacos se encontravam um uma jaula em cujo centro havia uma escada que conduzia a um cacho de bananas pendurado no alto. Toda vez que algum primata começava a subir para alcançar o cacho, os demais eram atingidos por jatos de água gelada. A inóspita cena se repetiu por algumas vezes, até que os macacos perceberam a correlação da escalada na tentativa do alcance da fruta com o jato da água, e resolveram espancar qualquer bicho que se apresentava para subir os degraus da escada. Após vários macacos apanharem do restante do grupo, os cientistas foram trocando pouco a pouco os chimpanzés, além de interromperem os banhos gelados. Uma substituição após a outra, não havia mais nenhum animal que havia passado pela antiga experiência, no entanto, o antigo costume do linchamento continuava, sem se saber por quê! É como se dissessem: sei lá, sempre foi assim por aqui, só macaqueei (com o perdão do trocadilho) os mais antigos. Em outras palavras, seguimos regras de comportamento do meio e daqueles que o permearam conosco, forjando um pedaço da ética do futuro.
Acredito que estejamos vivendo uma era na qual a ética funciona somente quando nos for conveniente e, apesar de estar ciente que de uma forma ou de outra, sempre foi assim com o passar das civilizações, estamos presenciando uma barafunda total no que concerne ao assunto, pois cada um a interpreta de uma forma distinta e, sobretudo, de acordo com interesses e conveniências próprias, e por isso mesmo, não há consenso ético em praticamente nenhuma área de nossos relacionamentos pessoais ou profissionais. Nós não temos acompanhado intermináveis discussões sobre ética nos esportes, empresas, relações entre seres humanos e animais etc?
Para ficarmos no assunto da Vegetarianos, o mundo não acha normal assassinar um animal para alimentar as bocas dos inconsequentes? Pois para os indianos, isto seria totalmente antiético, pois como sabemos, a vaca por lá é sagrada, tanto que parte deles acredita que é tão degradante exterminar uma vaca, que o ser humano ao fazê-lo, retorna a condição de demônio na escala reencarnacionista e precisaria passar novamente por oitenta e sete vezes degraus evolutivos para alcançar o statusde homem novamente. No entanto, embora difíceis (mas não impossíveis) de modificar e variando em questão de tempo e lugar, costume e caráter, ou seja, a controvertida ética possui dentro dela mesma, um teor altamente universal e imutável. Em outras palavras: há alguns filamentos incutidos na ética do mundo que independem de época ou civilização, tais como honestidade, lealdade, honra, verdade, amizade e algumas outras que descansam suas almas na lápide da ética perdida nas invisíveis linhas dos labirintos sociáveis dos homens.
O mundo se encontra em um posicionamento de extremo egoísmo; praticamente tudo o que fazemos, no fundo, no fundo, jaz em interesse próprio. Tendo observado isso, tenho tentado aplicar comigo mesmo e nos meus alunos que aquilo que fazemos deve ser recheado de prazer e sentido de dever interno, e não somente porque de alguma forma, colheremos frutos em benefício próprio proveniente da reação de nossas atitudes. Por exemplo, já percebeu que quando abrimos nossas janelas nos semáforos encruzilhados dos mendicantes, grande parte das vezes, o fazemos sem o objetivo sincero do querer bem do pedinte, mas com o tácito desejo de livrar-nos de uma intrínseca e sinistra culpa, libertar nossas consciências do peso de que há alguém como nós passando por extrema dificuldade, e preferimos pensar que estamos fazendo algo pra ajudá-lo ao dar uns trocados no frio e indiferente concreto das intermináveis esquinas. Ao fazê-lo, nos sentimos menos pesados: “pronto, estou mais leve, fiz a minha parte” – preste atenção se não é esta a voz 3de sua consciência, toda vez que fizer caridade. Como diria o filósofo francês Foucault: ética = melhor forma de viver. Concordo com ele – a mera consequência da aplicação da ética na vida de um homem de bem o fará passar por ela de uma forma mais bela e nobre.
Por Fábio Euksuzian (fabio.euk@uni-yoga.org) Fábio Euksuzian é membro da Conselho Administrativo da Uni-Yôga, instrutor de Swásthya Yôga e diretor da Unidade Vila Olímpia, filiada à Uni-Yôga. Mais informações: universoyoga.org.br